domingo, 26 de outubro de 2008

Uma imagem, uma história

Em 1936, a fotógrafa estudianense Dorothea Lange registou uma das suas fotos mais conhecidas, o retrato de uma trabalhadora que migrou da Califórnia com os seus três filhos. Migrant Mother é uma das imagens mais reproduzidas na história da fotografia, tendo aparecido em dez mil publicações. Na altura, Dorothea Lange estava a realizar um documentário para a Farm Security Administration (FSA) sobre o impacto da Grande Depressão na vida dos camponeses no Sul e Oeste dos Estados Unidos da América.

Migrant Mother,Nipomo, California, 1936, Dorothea Lange

1 comentário:

♡J♡A♡N♡E♡ disse...

Esse rosto contraído, enrugado,faminto, triste,preocupado,distante, desesperado, que mantém seu olhar ao longe, que vislumbra um horizonte imaginário era de Florence. Imortalizado pela lente de uma câmera aos 32 anos perscruta o vazio. Ela era uma espécie de bóia fria, sem teto, despossuída, vitima da crise econômica que devastava seu país, peregrinava pelo Estado da Califórnia na esperança de encontrar nesse paraíso agrário um alento no ano de 1936.
Não creio que fosse migrante como nomearam a foto, ela pegara seu destino e o colocava na estrada coagida pela miséria,era uma flagelada, uma nômade, tão nômade como os primeiros homens desse continente, vagueava atrás da sobrevivência, sua e de sua prole. Era descendente de índios e casou com um agricultor de origem européia, no Dia de São Valentin, ele morreu antes dessa foto e ela já tinha sete filhos. Trabalhadores em lavouras, sem qualificação tinham a renda familiar muito baixa. A família perambulava pelo país em busca de melhores oportunidades e teve sua situação financeira agravada pela grande depressão econômica que abalou o mundo (1929).
Nos últimos dias sobreviviam comendo vegetais dos campos vizinhos e dos pássaros que as crianças caçavam.
Uma fotógrafa foi contratada pelo presidente Franklin Roosevelt para retratar as condições precárias dos trabalhadores rurais e a vida no interior do país; pretendia justificar as medidas que ele vinha adotando para recuperar a economia estadunidense depois da quebra da Bolsa em 1929. Ela encontrou a família nesse barraco miserável e em poucos instantes tirou as fotos. Florence manteve-se alheia, parece desimportar-se com o que acontece no entorno, concentrada em escorar em seus ombros as filhas, uma vida oprimida e a perspectiva de um futuro mísero.
Houve um acordo silencioso mútuo entre as duas mulheres. Uma a trabalho de órgãos governamentais outra necessitando da ajuda do Estado. Um único encontro.
Uma mala velha com as poucas quinquilharias, uma cadeira de balanço, um prato vazio, um lampião compõem a cena paupérrima. A imagem dessa mãe sofredora tem uma força tão singular que atravessa as décadas.
Roosevelt conseguiu recompôr a economia e a sociedade estadunidense foi sensibilizada por aquelas imagens de trabalhadores pobres, de quem as fotos ressaltavam a dignidade e a humanidade.
A foto é uma das mais famosas dos Estados Unidos até virou selo dos correios. Nomeada como “Mãe migrante” se tornou um ícone e recursos foram levantados para a população daquela região. Em 1936 foi publicada na Survey Graphic e incluída na exposição U.S.Camera, que rodou os Estados Unidos e a Europa. Entre 1938 e 1940, cerca de 175 jornais e revistas reproduziram a fotografia. Em 1941, foi exibida no Museu de Arte Moderna. A imagem se tornou tão simbólica que foi usada em outras causas, servindo como modelo para a litografia Spanish Mother, The terror of 1938 para uma ilustração na capa de uma revista venezuelana em 1964 e para uma versão racial, publicada no Black Panther' Newspaper em 1973.
Em 1978, até então anônima, Florence reclamou à Associated Press que não havia ganhado nenhum centavo pela fotografia. Ela disse que havia tentado, sem êxito, proibir a sua reprodução. No ano seguinte, a United Press International publicou uma reportagem sobre a Sra Thompson. A foto alavancou a carreira da fotógrafa.
Jornalistas americanos passaram décadas tentando localizar a mãe e seus sete filhos. No final dos anos 1970 ela foi encontrada, não prosperara muito. Vivia em um trailer, o que nos Estados Unidos lhe dá o status de classe média-baixa. Mesmo passados setenta anos da foto a família não alterou muito seu poderio econômico. Em 1983 Florence adoeceu, seus filhos e netos fizeram uma campanha para arrecadar fundos para o tratamento. Conseguiram US$ 25 mil.
Florence sobreviveu a Grande Depressão estadunidense, mas não ao câncer e no seu túmulo se lê: “Mãe Migrante – Um ícone da força da mãe americana”.

janecassol
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